Criação dos títulos de filmes no Brasil

Olá, meus caros.

Todo cinéfilo de carteirinha fica, sempre que possível, no mínimo indignado com as escolhas para os títulos dos filmes estrangeiros no Brasil. Os departamentos de criação das distribuidoras nacionais possuem a capacidade incomensurável de fazer alterações mirabolantes com os nomes.

Sim, quem faz a alteração dos nomes são as distribuidoras. Cada uma possuí o seu departamento. Quando uma distribuidora compra os direitos de distribuir o filme em seu respectivo país, fica a encargo dela decidir o nome que o filme receberá. Aquilo que uma distribuidora decidiu como título de um filme, talvez fosse decidido de uma maneira totalmente diferente por outra. Não existe um tradutor universal ou algum consenso, por mais irrisório que seja, entre as distribuidoras.

Ninguém precisa me explicar que os títulos são escolhidos para melhor adequação a cultura do povo que está importando o filme. Eu sei que o título deve ser adaptado para o país de chegada, mas só em caso de trocadilho ou expressões idiomáticas do país de origem! Qualquer outro caso ele DEVE ser traduzido ao pé da letra!

Alterar "West Side Story" (História do Lado Oeste) para "Amor, Sublime Amor" até pode fazer sentido, pois realmente são poucos que conhecem os bairros de imigrantes de Nova Iorque (Chinatown, Little Italy, Little Odessa, ), nesse caso a delimitação entre o bairro porto riquenho e o caucasiano.

Agora, me explica qual o sentido de alterar "Vertigo" para "Um Corpo que Cai"? (Literalmente entregando a história do filme!) Que tipo de burrada é essa?

Qual o problema em traduzir "The Philadelphia Story" para "O Conto da Filadélfia"? Não, claro que não... As distribuidoras preferiram "Núpcias de Escândalo"! Que nome mais baixaria!

Por que traduzir "The Shawshank Redemption" para "Um Sonho de Liberdade"? Deixa a tradução literal "A Redenção de Shawshank". O nome é difícil, eu sei... E daí?

E mais recentemente "Up" que foi alterado para "Up - Altas Aventuras"! Poxa vida, Up significa "para cima"! O nome do filme literalmente ficou "Para Cima - Altas Aventuras"!! Que merda é essa? Deixa só "Altas Aventuras"!!!

Outros belos exemplos de redundância a flor da pele: "O Galinho Chicken Little", "O Pequeno Stuart Little", "Yojimbo - O Guarda-Costas" (Yojimbo significa guarda-costas em japonês). Infelizmente fizeram isso com a obra-prima de Scorsese, "Taxi Driver - Motorista de Táxi" (Ninguém merece!).

Sem contar quando o filme altera totalmente a mensagem que o diretor gostaria de passar. Por exemplo: o filme auto-biográfico de John Lennon saiu com o nome original de "Nowhere Boy", literalmente traduzido para "O Garoto de Lugar Nenhum". O título no Brasil: "O Garoto de Liverpool"! Alterou totalmente o significado e a apelação cultural que Lennon representou na sociedade. O diretor do filme quis deixar bem claro que Lennon não pertencia a um lugar específico, e o Brasil inverteu!

Felizmente temos algumas traduções que de fato, acabaram atribuindo um título melhor do que o original. "The Godfather" (O Padrinho), foi alterado para "O Poderoso Chefão", assim como "Jaws" (Mandíbulas), foi alterado para "Tubarão". Contudo, isso ocorre com no máximo 5% dos filmes lançados.

No geral é assim: 5% de pérolas, 20% de traduções literais e 75% de lixo tóxico!

Citei apenas alguns exemplos... Meu coração não aguentaria comentar mais... Infelizmente sabemos que isso ocorre em uma infinidade de filmes (Colocarei exemplos mais objetivos abaixo).

Para os amantes do cinema sempre acontecem desencontros no hora de conversar sobre aquele filme mais antigo (Sem contar a dor de cabeça!).

O real motivo para isso acontecer? Dinheiro! Sempre foi e sempre será! Quanto mais comercial o título melhor para vender. Isso apenas contribui para a ignorância da população. Poderíamos estar aprendendo de fato com uma cultura externa (Nomes de cidades, humor...), mas dinheiro é mais importante, certo?

Uma salva de palmas para os departamentos de distribuição do Brasil!


                   Título original (Tradução literal) - Tradução no Brasil (Comentário)

  • Annie Hall (Annie Hall) - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Detalhe os protagonistas nunca ficam noivos no filme! Acho que quem decidiu o nome nem assistiu o filme!)
  • The Sound of Music (O Som da Música) - A Noviça Rebelde (Rebelde é pouco para a personagem de Julie Andrews. Sem mencionar que ela é uma noviça apenas no comecinho do filme)
  • Jay and Silent Bob Strike Back (Jay e Silent Bob Contra-Atacam) - O Império (Do Besteirol) Contra-Ataca (Já havia uma referência ao filme "Star Wars - The Empire Strikes Back" no título original, mas o Brasil precisava exagerar, colocando até parênteses no título)
  • Persona (Persona) - Quando Duas Mulheres Pecam (Persona diz respeito ao personagem  no universo teatral. A relação das mulheres no filme não tem a ver com pecado)
  • Rat Race (Corrida de Ratos) - Tá Todo Mundo Louco! - Uma Corrida por Milhõe$ (Eu gosto do filme, admito! E Rat Race realmente deveria ser alterado, pois, é uma expressão nos Estados Unidos para designar uma perseguição sem sentido. Poxa, mas eles poderiam ter traduzido para algo mais adequado. Que tal "A Corrida dos Loucos" ou "A Corrida dos Milhões", certo?)
 Por fim, em homenagem aos nossos queridos tradutores:
  • Lost in Translation (Perdidos na Tradução) - Encontros e Desencontros (Nada mais adequado!)
Abraço a todos!

Glen or Glenda (1953)


Olá, meus caros.

Na análise de hoje um filme de... Peraí!

Não... Não pode ser... Não!

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Just shoot me! I can´t stand it any more!
Oh, God, please, no!!

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

No, Bela! Not you! Not you!
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Um pouco de sim, afinal de contas é o Bela "Fucking Dracula" Lugosi!

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

WTF is this shit!?
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Meu coração!

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

NOTA: Burn, you motherfucker! Burn!!

A Hora Final (1959)


Olá, meus caros.

Eu gostaria muito de não ter uma postura ofensiva sobre esse filme, mas infelizmente não irei conseguir. Conforme o assisti, percebi dezenas de defeitos na estrutura do enredo (E em algumas atuações).

O plano de fundo da história é simples. No auge da Guerra Fria, as explosões nucleares realmente aconteceram e o único lugar do planeta não diretamente atingido foi a Austrália. Gradativamente a radiação está se aproximando do continente, o que leva a população a tomar certas medidas para sobreviver. 

Cada personagem irá representar aqueles velhos (Na época nem tanto) esteriótipos que já conhecemos... O casalzinho apaixonado, o casalzinho pós-maduro, o cientista alcoólatra, o capitão sereno e por ai vai...

"On the SHIT" é um nome mais apropriado para esse filme.
O talento do elenco é indiscutível, com especial mérito para a atuação de Ava Gardner. Peck, como sempre, nos presenteia com uma atuação objetiva e centrada (Fiel ativista do não uso de armas nucleares, Peck decidiu participar do projeto). Astaire, em seu primeiro filme não-musical, consegue impactar com presença e sentimento. Todavia, não consegui ficar sequer minimamente satisfeito com a atuação de Anthony Perkins (Talvez ele só saiba ser o Norman Bates, mesmo...)

Ele é um ator boa pinta, mas sempre parece estar distante nas cenas e não consegue desenvolver certas expressões que se fariam valer em dados momentos. Ele não era um ator estreante, nem nada, mas é perceptível o amadorismo em sua atuação, principalmente quando comparado com seus co-astros.





Diversos elementos da história também não consigo digerir. Por que raios todo mundo está tão normal?? Gente, o planeta foi "destruído" e está repleto de radiação, que por sua vez, está se aproximando... E as pessoas continuam indo na praia?? Indo trabalhar de bicicleta ou de cavalo com um sorriso no rosto? Que lógica há nisso? Vamos supor que não existisse escapatória do macabro destino que aguardava a população... Esperar sem fazer nada é que realmente não iria ajudar a mudar a situação! Por que esse povo não construiu Vaults ou qualquer coisa do tipo? 

Um diálogo entre a população deveria ser assim:

-Olha a radiação está chegando... Vamos construir alguma coisa para nos proteger?
-Que nada, vamos no praia tomar um solzinho... 
...

Eu sinceramente fiquei feliz que todos esses imbecis morreram.



Não há dúvida que todo o orçamento do filme foi usado para pagar os atores. Um filme completamente parado, com diálogos e mais diálogos. Isso não seria algo ruim se você quisesse assistir a um melodrama histórico. Mas, por favor, se você quer fazer um filme pós-apocalíptico, coloque bastante discussão e explosões, e, se possível, humanos deformados pela radiação. 

O diretor de "A Hora Final" é nada mais, nada menos que Stanley Kramer. Um dos maiores nomes de Hollywood. Ele é o pai dos "filmes com mensagem", mas neste filme seu trabalho como diretor ficou a desejar. Não obstante, ele e/ou o cameraman não conseguiam manter a câmera fixa de jeito nenhum e constantemente cortavam a cabeça dos atores. Não se deram ao esforço de filmar um, pelo menos um, prédio em ruínas para dar o mínimo de realismo a um filme desse gênero.

Perceberam o que quero dizer? O barquinho é mais importante que a cabeça da atriz.
O máximo de ação que chegamos a ter fica a encargo de uma cena de corrida de carros, em que 4 ou 5 dos pilotos batem e seus respectivos carros explodem. E todos do platéia aplaudem o vencedor (Fred Astaire), sem se importar para os pobres coitados que tiveram seus corpos carbonizados nas explosões... Que bela lógica para um filme que quer passar uma lição de "esquecer a guerra e amar o próximo"!


Muitos descrevem esse filme como excelente, verdadeiro clássico, não sei o quê, não sei o quê lá... Mas na minha singela opinião, esse filme é uma porcaria, independente se passa uma mensagem consciente ou se tem um par de ótimas atuações, o filme como um todo não é bom. São 2h15 de imagens estáticas e sem carisma (Não consigo me importar com os personagens). Não tem sequer uma boa trilha sonora!

Para concluir, o motivo da guerra ter acontecido é simplesmente ridículo. Não irei dizer qual foi, deixarei para os bravos descobrirem. Recomendo apenas para cinéfilos.

NOTA: 5

Capitão, péssimas notícias...

WALL-E (2008)

Olá, meus caros.

Quando assisti Wall-E pela primeira vez, fiquei completamente extasiado. Inúmeros foram os motivos para tal. A beleza desta obra é única! Seja a carisma do personagem, o plano de fundo pós-apocalíptico ou a belíssima trilha sonora, tudo contribui para a total imersão na história. Sei que já faz 6 anos do lançamento deste filme e que quase todos já assistiram ao mesmo, mas preciso, mesmo que sumariamente, descrever minhas opiniões sobre ele.

Sou suspeito em dizer muita informação favorável, pois, amo filmes pós-apocalípticos, mas Wall-E é sem dúvida minha animação preferida até o momento. Adoro "A Bela e a Fera", "O Rei Leão", "A Branca de Neve" e "Toy Story", é claro... Mas Wall-E conseguiu atingir-me em um nível muito profundo.

A história é muito bem trabalhada no decorrer da trama. Nosso planeta tornou-se inabitável devido a descomunal produção de lixo, ocasionada pelo super consumismo facilitado pela mega corporação Buy 'n' Large. Com isso, no ano de 2105, os seres humanos foram enviados ao espaço pela mesma corporação para viverem em gigantescas naves totalmente automáticas. Robôs ficaram responsáveis por limpar e recuperar o planeta até o suposto retorno dos seres humanos. Os robôs em questão: os "Wall-E" (Waste Allocation Load Lifter - Earth class). No ano de 2805, apenas um Wall-E conseguiu resistir as intempéries da Terra, que por sua vez, começou a apresentar tempestades de areia colossais. Em seus 700 anos de utilidade, Wall-E desenvolveu personalidade própria (Apesar de ainda respeitar as Três Leis da Robótica, de Asimov), e resistiu ao tempo se reparando com peças dos outros robôs desativados ou parcialmente quebrados. Wall-E possui apenas uma amiga... Uma simpática baratinha. Certo dia, uma nave de reconhecimento, de uma das naves maiores, mais precisamente a "Axioma" que estava vagando pelo espaço, chega a Terra e libera um outro robô, consideravelmente mais avançado... A função da EVE (Extraterrestrial Vegetation Evaluator), o novo robô, é recuperar vestígios de vida orgânica na Terra. É aqui que o filme verdadeiramente começa a ganhar brilho, pois, Wall-E imediatamente se apaixona por EVE e está disposto a fazer tudo para vê-la em segurança e ao seu lado.


O filme possui muita comédia, como é de costume nas animações da Disney/Pixar. É simplesmente impossível de não se apaixonar pelas trabalhadas de Wall-E. Sua simpatia e inocência (O que anda faltando no ser humano...) são contagiantes. O personagem nos ensina tanto, sem sequer dizer uma palavra. Seu romance com EVE é repleto de senso de cavalheirismo e boas maneiras.

O visual do filme é excepcional e acaba compensando pela ausência de diálogos. Precisamos prestar atenção nesse critério. O filme não possui muitos diálogos, pois muitos dos personagens são robôs, que por sua vez, não possuem uma comunicação verbal. Contudo, não é por isso que o roteiro é ruim. Ele de fato é simples, mas transmite na medida do necessário tudo que é essencial para a concisa apreciação do filme, por qualquer espectador que seja. Wall-E é indiscutivelmente um filme para todas as idades. Sua mensagem é extremamente sadia para as futuras gerações, e nos traz luz em observar como estamos cuidando de nosso planeta.

A ideia de Wall-E foi tida entre um almoço de executivos da Pixar em 1994. O diretor Andrew Stanton e os roteiristas John Lasseter, Peter Docter e Joe Ranft também tiveram, no mesmo almoço, ideias para outros filmes. Dentre eles estão: "Vida de Inseto", "Monstros S/A" e "Procurando Nemo".

A concepção original, como dita por Stanton seria: "... e se a humanidade tivesse que sair da Terra e alguém se esquecesse de desligar o último robô?". O roteiro original foi rejeitado por parecer apenas mais uma história de extraterrestres (EVE seria raptada por alienígenas e Wall-E teria que salvá-la). Depois de algum tempo em hiato, a produção retornaria em 2002 (Quando Stanton estava terminando de realizar "Procurando Nemo", começou a reescrever Wall-E).

Wall-E claramente realiza homenagens a Chaplin e Kubrick no decorrer de sua extensão. Diversas cenas são inspiradas nas obras desses cineastas (E de muitos outros).

Outra grande crítica do filme é feita em cima da sociedade hiper consumista da atualidade. A imersão na alienação social se tornou um enorme problema, que de tal modo, acaba apenas dando continuidade ao ciclo de conformidade e consumismo criada pela própria sociedade, que devido a sua inércia inconsciente, não consegue escapar dos estratagemas arquitetados por ela mesma. O ser humano necessita se rebelar contra as instituições que monopolizam sua maneira de pensar, e se tornar integrante de uma sociedade livre e intelectual que irá certificar o seu natural crescimento, liderada por virtudes e não vícios, como é atualmente.

Andrew Stanton verdadeiramente conseguiu realizar uma obra singular, que consegue consubstanciar duas realidades de maneira ímpar, nos transmitindo uma mensagem importante, casada com uma experiência cinematográfica cativante. Um filme brilhante em todos os sentidos!

NOTA: 9.5


Enterrado Vivo (2010)

Olá, meus caros.

Sexta-feira à noite, sem muito o que fazer, comecei a passar os canais na TV... Depois de algum tempo, eis que encontro um canal que estava para começar um filme que eu sequer tinha ouvido falar. Sou meio desiludido com filmes recentes, por isso não adentrei com grandes expectativas ao assistir "Enterrado Vivo", mas de qualquer modo resolvi dar uma chance a ele. 

Fiquei realmente impressionado com esse fabuloso exemplo de cinema minimalista. Um filme que nos transmite sentimentos claustrofóbicos e o verdadeiro desespero daqueles que são levados ao limite da sanidade e do instinto de sobrevivência. O filme todo se passa em um caixão, em que Paul Conroy (Ryan Reynolds), um motorista de caminhão trabalhando no Iraque acaba sendo enterrado depois de seu comboio ser atacado por "terroristas" (O filme até nos proporciona outra luz sobre essa palavra). No caixão, Paul precisará sobreviver com alguns objetos "úteis": celular, isqueiro e uma faquinha. Ele consegue se comunicar com outras pessoas através do celular, inclusive com o terrorista, que solicita uma quantia em direito para libertá-lo. 

Paul praticamente realiza ligações para todos os departamentos de segurança dos EUA e é perceptível a falta de interesse dos mesmos em ajudá-lo de alguma maneira concreta. Sem dúvida a burocracia é a segunda maior crítica do filme a sociedade contemporânea, em que reputações e papeladas são colocados acima da vida humana.

Não obstante, o diretor Rodrigo Cortés descreve de maneira fria os enclaves psicológicos de pessoas expostas ao extremo para sobreviver. Paul ter sido enterrado vivo (Não ter para onde se mexer) sem dúvida pode ser comparado aos próprios conflitos no Oriente Médio, onde o povo árabe acabou sendo submetido a pressões externas e sua sociedade desmantelada. Não estou do lado dos terroristas, mas uma conversa do filme realmente chamou minha atenção. Tentarei reproduzi-lá.

(Conversa pelo celular)

Paul: Por que você fez isso comigo? Eu não sou um soldado! Não tenho nada a ver com essa guerra em seu país!
"Terrorista": Eu também não tinha nada a ver com Bin Laden ou com Saddan Hussen, mas isso não impediu vocês de virem até meu país e destruí-lo...
Paul: Eu não sou um soldado!
"Terrorista": Você é americano?
Paul: Sim!
"Terrorista": Então você é um soldado...
Paul: Eu tenho dois filhos!
"Terrorista": Eu tinha cinco! Agora só tenho um!
...

O que você faria em um país destruído? Um país em que todas as pessoas que algum dia você conheceu, morreram, vítimas das atrocidades da guerra? Como você se sentiria se fosse hostilizado por um povo hostilizado por você mesmo? Ter pontos de vista diferentes realmente podem enobrecer e expandir o domínio sobre dado assunto. E Cortés conseguiu nos transmitir isso. Uma crítica construtiva sobre a brutalidade de ambas as partes. No fundo todos somos seres humanos. E quando o ser humano é colocado no limite de sua existência, percebemos o que ele realmente é capaz de fazer para sobreviver.

Ryan Reynolds nos proporciona uma das melhores atuações de sua carreira, sustentando muito bem toda a tensão inerente a uma produção desse gênero. Sendo o único ator que aparece em tela (todos os outros são apenas as vozes no celular), Reynolds cresce no decorrer da trama, demonstrando toda sua capacidade em uma atuação quase perfeita. Muitas cenas mostram dificuldades perceptíveis ao serem realizadas, e a última cena, nas palavras do próprio Ryan:"... foi uma experiência que não quero tornar a repetir.".

Rodrigo Cortés realizou uma excepcional filmagem em um espaço extremamente restrito. A maneira que ele filmou a primeira tomada fez meu intelecto virar algodão-doce. Cortés filmou uma obra de tensão claustrofóbica com críticas sociais, casada com uma sublime perícia com o câmera. Uma habilidade extremamente difícil de ser encontrada em um cineasta.

Concluo, recomendando "Enterrado Vivo" para aqueles que gostariam de se aprofundar nas mais diversas perspectivas sobre os conflitos do Oriente Médio ou os que queiram cada vez mais entender a natureza do homem.

NOTA: 8

O Grande Hotel Budapeste (2014)

Olá, meus caros.

Há tempos possuo o anseio de analisar essa verdadeira obra-prima do mestre Wes Anderson. Apesar de ser um diretor relativamente desconhecido, Wes possui um estilo sublime que mescla humor, visual e narrativa de uma maneira nunca antes explorada. Graças a ele já fomos agraciados com excepcionais filmes como "Rushmore (1998)", "Os Excêntricos Tenenbaums (2001)" e "O Fantástico Senhor Raposo (2009)".

Mas em minha opinião "O Grande Hotel Budapeste" é sem dúvida seu melhor trabalho. O esmero nos detalhes é simplesmente feérico. As atuações, o figurino, a fotografia... Tudo beira a perfeição.

Cachimbo!
O estilo narrativo é indescritivelmente um dos melhores já criados pela mente humana. Tudo flui de maneira enérgica e consistente, sem que haja perda na dinâmica por um segundo sequer. 

A estória é inspirada nas obras do escritor austríaco Stefan Zweig, que durante as décadas de 20 e 30, fora um dos mais populares escritores de todo o mundo. Por ironia, ele veio a falecer em terras brasileiras, mais precisamente na cidade de Petrópolis.

Em linhas bem diretas, o filme se inicia quando um famoso escritor (Jude Law) começa a narrar os acontecimentos da época em que estava com um bloqueio criativo. Através desse inoportuno evento ele decide se refugiar durante uma temporada em um hotel no interior de seu país, a República de Zubrowka. O hotel em questão, O Grande Budapeste, já fora um dos hotéis mais importantes de toda a Europa. Em sua proveitosa e relaxante estadia, ele acaba por conhecer o dono do hotel, Zero Moustafa (F. Murray Abraham) que acaba lhe contando como ele conseguiu se tornar o dono do Budapeste. A história contada por Zero se tornaria inspiração para a maior obra do escritor.

O elenco do filme é simplesmente idílico. Além dos dois astros já mencionados, vislumbramos belíssimas atuações de Bill Murray (Colaborador de Wes), Willem DaFoe, Adrien Brody, Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Tom Wilkinson, Owen Wilson e Edward Norton, além de sermos apresentados a Tony Revolori, em seu primeiro grande filme.

Ralph Fiennes (Centro), Tony Revolori (Direita) e Sei Lá (Esquerda)
Duende-Verde e aquele Pianista que ganhou Oscar. 
Harvey "Fucking A" Keitel
Acredite se quiser, mas apesar da quantidade de atores e do curto espaço de tempo que cada um aparece em cena, todos os personagens foram excepcionalmente bem elaborados. Os atores e atrizes incorporaram a atmosfera do filme e dão vida, na essência da palavra, aos seus respectivos personagens. 

Por se tratar de uma comédia podemos supostamente imaginar que o filme não dispensa certo tempo com temas mais sérios. Todavia, uma das histórias paralelas é o desenvolver do início de uma guerra. Wes Anderson, nos transmiti de maneira bem-humorada os enclaves das relações de poder em períodos de crise seja no âmbito familiar ou na sociedade a beira de um dito colapso.

A fotografia é, em suma, fantástica! O estilo visual favorece o desenvolvimento de diversos aspectos de intrínseca relevância para a trama, como por exemplo, a perspectiva lúdica-sombria de certos momentos. É claro que o talento do elenco também ajuda consideravelmente nesse critério.

Semelhança? Só que não!
Lá no fundo, no fundo mesmo, dá para ver o Wally.
A trilha sonora foi meticulosamente composta pelo francês Alexandre Desplat. Cada nota se enquadra perfeitamente no decorrer do filme. Apesar de estar faltando um pouco de zither, na minha opinião. (Alguém lembrou de "The Third Man"?)

A sensibilidade é um termo chave para descrever "O Grande Hotel Budapeste". É quase impossível de acreditar que atualmente possamos presenciar a criação de uma obra nesses moldes, que zela pelo apreço nos detalhes dos personagens e que saiba desenvolver um excelente roteiro. É uma verdadeira pena que não exista mais cineastas com a visão de Wes Anderson. 

Concluo ressaltando o magnífico brilho que este filme nos traz. Um clássico instantâneo, que nos faz rir do começo ao fim. Realmente um filme que merece ser apreciado.

NOTA: 9.5

Dedico esta análise a moça que me faz sorrir e acreditar na beleza do mundo a cada novo dia. Marina, eu te amo. Que ainda possamos assistir muitos filmes juntos!

Abismo do Medo (2005)

Olá, meus caros.

Fiquei extremamente surpreso ao assistir este filme! A princípio imaginei que seria apenas outro thriller mais ou menos. Qual não foi minha surpresa em descobrir que ele era muito, muito além de minhas expectativas. Este é sem dúvidas um dos melhores filmes de terror dos últimos 20 anos.

O enredo é consideravelmente diferente para um filme de terror. Um grupo de 6 amigas, amantes de esportes radicais, perde-se em uma caverna ainda não explorada. A caverna em questão esconde um grande segredo...

A estória realmente te prende do começo ao fim da narrativa. A julgar a duração do filme, os personagens são indescritivelmente bem desenvolvidos. A fotografia é maravilhosa, tendo como objeto central a espeleologia (Estudo e exploração das cavernas). O sentimento claustrofóbico é recorrente no filme inteiro, além de demonstrações frias de como o ser humano reagiria em situações de desespero. O caráter instintivo, inerente a qualquer animal, é soberbamente explorado na trama. Um ponto bastante importante, que abusa da originalidade e que consegue criar uma dimensão única na cadência das cenas. Muitas cenas são inesperadas, acreditem, sustos são garantidos .

Expressei um sonoro "P*** que P****" apenas em três cenas de três diferentes filmes. E um desses filmes foi "Abismo do Medo".

As atuações são maravilhosas, em especial da personagem principal. A única coisa que poderia ter sido mais elaborada é a trilha sonora. Ela é bastante genérica e não consegue impactar em um nível visceral. Atende bem nos momentos de ação, mas em certas partes senti falta de um refrão. Gostaria tanto de ficar com uma musiquinha macabra na mente depois que terminasse o filme...

Este filme é digno de uma trilha marcante, que realmente grudasse na mente. Uma música bem composta, com um refrão memorável, tem o potencial de elevar e muito qualquer filme que seja. Basta lembrar de Halloween (1978) ou Star Wars (1977). E Abismo do Medo merecia uma atenção maior nesse departamento. 

Já faz praticamente dez anos que "Abismo do Medo" foi lançado e me sinto triste por mais pessoas não conhecerem essa belíssima obra. Não obstante, em 2009 fomos agraciados com a sequência, que por sua vez, não é tão radiante quanto o original, mas sustenta-se de maneira ímpar.

Recomendo que vocês assistam este filme sem sequer ler qualquer análise mais profunda e até mesmo sem assistir o trailer. Acreditem, a surpresa será das boas!

NOTA: 8