Vidocq (2001)

Olá, meus caros.
               
Inúmeros fatores (Estes, por sua vez, bastante peculiares) levaram-me a selecionar Vidocq como o próximo filme analisado. Creio que o mais relevante deles consiste na ausência de reviews margeando o gênero da ficção científica que tal filme pertence: o SteamPunk.
               
Antes de iniciar a análise do filme em si, irei explicar um pouco da história do Steampunk.
           
Por favor, situem-se neste contexto: Inglaterra; Revolução Industrial; Máquinas a Vapor. Tudo certo até aqui? Bom... Todos nós sabemos que as máquinas a vapor entraram em decadência à partir da invenção da eletricidade. No Steampunk é justamente o inverso. O vapor (Steam em inglês) é a base para toda a aparelhagem industrial e até o mais simplório dos itens domésticos. O quadro geral é este: tudo gira em torno do vapor. Contudo, existe um oceano de especificidades dentro desse gênero (Vidocq enquadra-se em um deles).

Na Era Vitoriana o apreço pela qualidade era absurdo. Tudo era produzido com o melhor dos materiais, desde as melhores madeiras (Muitas árvores derrubadas... Bem, tudo pelo "desenvolvimento", né?) para os móveis e ferramentas, até o exacerbado uso de ouro (Diga-se de passagem, ouro brasileiro) nas joias e instrumentos científicos. Abrindo o leque, podemos denotar que certas palavras, como cartolas, cachimbos, engrenagens e magia, nos auxiliam a imergir melhor nessa atmosfera steampunkniana. Anacronismos tecnológicos também são usuais.
             
Júlio Verne foi um dos precursores desse gênero. Vinte Mil Léguas Submarinas, publicado em 1870, e Volta ao Mundo em 80 Dias, publicado em 1873, são consideradas as primeiras obras Steampunk (Tal termo, contudo, só seria cunhado em 1987). Hugo Gernsback (Lembra do maior prêmio da ficção cientifica, o Hugo Award? Uma homenagem a tal escritor), H.G. Wells e H.P. Lovecraft, através da ficção especulativa característica de seus escritos, lapidaram melhor os preceitos do steampunk durante a primeira metade do século XX. Ressalto o quão híbrido esse gênero se tornou. Seja no horror, no Velho-Oeste ou com temáticas retro-futuristas, o steampunk ganhava espaço.
          
No cinema, somente na década de 90, cineastas começaram a realizar trabalhos consistentes em torno do conteúdo steampunk. É aqui que Vidocq entra em cena, meus caros.

Olhar em sua máscara era como perder a própria alma...
Maus agouros...
França. 1830. Um famigerado assassino mascarado, conhecido apenas como "O Alquimista", está raptando moças virgens para algum tipo de experimento macabro. O motivo? Ninguém sabe ao certo. 

A investigação deste caso estava nas mãos de Vidocq, o melhor detetive do mundo, e de seu parceiro Nimier. Por infortúnio, Vidocq é morto pelo Alquimista na primeira cena do filme. Com isso, fica a cargo de Étienne Boisset, o biógrafo de Vidocq, com o auxílio de Nimier, descobrir quem é o Alquimista e fazer justiça ao nome do grande detetive. 

Esse é o quadro geral da estória, que por sua vez, é apresentada nos primeiros 10 minutos do filme, todavia, à partir desse ponto, o clima de mistério, intrigas e a clássica investigação à la Sherlock Holmes, rege a cadência da trama. Constantemente, novas informações são trazidas a luz, que culminam em um desfecho (Fazendo jus ao gênero) fantástico.

Briga! Briga! Briga! Briga!

Como pode-se ver, o enredo é bastante imaginativo (Um ponto por isso...), todavia, ele é baseado na figura histórica de Eugène-François Vidocq, verdadeiramente o maior detetive do mundo. Nascido na vila de Arras, França, no ano de 1775, criminoso por natureza, Vidocq tornar-se-ia informante da polícia, e mais tarde, ele próprio, um oficial da polícia francesa. Mais tarde fundaria a primeira agência moderna de detetives, sendo ele próprio, o primeiro detetive particular do mundo. Conhecido como mestre da vigilância e do disfarce, foi inspiração para inúmeros escritores do ramo fantástico (Dentre eles Sir Arthur Conan Doyle para criar o já mencionado Sherlock Holmes). 

Modernizou a criminologia como nunca fora visto antes. Foi criador do cartão para as digitais, usado, à partir daqui, como ferramenta policial no mundo inteiro, foi o primeiro a usar balística no trabalho policial, o primeiro a oficialmente usar as pegadas na cena do crime como provas, foi criador (E até hoje sua família possui a patente de tais invenções) da tinta indelével e do papel sulfite inalterável... E, depois de aposentar-se, escreveu suas memórias, que por sua vez, tornou-se best-seller e o ajudou a definir sua própria notoriedade como a do maior detetive da história. 


O já imortal Gerard Depardieu, em seu 116º filme, dá vida a Vidocq em todo seu esplendor. Felizmente, tal filme foi filmado em francês, e como já sabemos, assistir Depardieu atuando em sua língua natal é um verdadeiro privilégio. É digno de salientar-se as cenas de luta (Acrescento: são muitas!), que por incrível que parece, foram excepcionalmente bem interpretadas por Depardieu.


Onde estão os bolinhos? 
(Acho que só os fãs vão entender essa)

Nimier, o parceiro de Vidocq, foi interpretado por Moussa Maaskri. Da mesma forma uma bela atuação. Distorção : uma palavra que define bem esse personagem. Alcoólatra, rabugento, fiel e inteligente. Contradições à flor da pele, não é mesmo? Nunca sabemos ao certo o quê Nimer está pensando, todavia, essa é a beleza do personagem.

Vidocq: Onde estão as bebidas da festa, Nimer?
Nimier: Je ne sais pas!

A dupla dinâmica francesa

Guillaume Canet interpreta Étienne Boisset, biógrafo de Vidocq que deseja acima de tudo encontrar o Alquimista e vingar a morte de seu ídolo.


Por fim, temos a espanhola Inés Sastre interpretando Préah, uma excepcional dançarina que acaba se envolvendo na trama. Os tons de sensualidade do filme ficam todos por conta dessa belíssima atriz.

Meu Deus. Dio Mio. Mon Dieu.

Vidocq foi o primeiro filme dirigido por Pitof, que por sua vez, é conhecido mundialmente por suas colaborações nos efeitos especiais de filmes como "Delicatessen" de 1991, "The City of Lost Children" de 1995 e o excepcional "Alien: Ressurection" de 1997, todos esses filmes, por sua vez, foram dirigidos por Jean-Pierre Jeunet, seu amigo de longa data. 

Pitof abriu mão de envolver-se no perfeito "Amélie" para dirigir Vidocq. Apesar do presente filme ser extraordinário, será que valeu a pena? É incrível quando paramos para pensar que o segundo filme dirigido por Pitof foi o infame "Catwoman" de 2004. É, meu caro, aquele mesmo com a Halle Berry... Muitos dizem que Pitof destruiu Hollywood depois dessa porcaria. Eu digo o contrário: Hollywood destruiu Pitof! 


Os grandes estúdios adoram importar diretores estrangeiros, já de certo renome, para a realização de suas mega-produções, contudo, eles tiram toda a liberdade de criação dos diretores e desenvolvem o que eles querem. Filmes assim, são dirigidos mais pelos megas produtores do que pelos coitados diretores. 


O passado de Pitof nos efeitos especiais é latente, isso é inquestionável, mas percebi que seu trabalho em relação a interação e com o elenco é consideravelmente fraco. É difícil sentir interesse em colocar sua marca, se é que ela existe, na atuação dos atores. Entretanto, graças ao talento do elenco de Vidocq isso não chega a ser um problema, mas está claro que Pitof prefere trabalhar com computadores do que com pessoas...

Found you!

Ao contrário do que George Lucas gostaria que você pensasse, foi Vidocq, e não "Star Wars: Ataque dos Clones" (2002), o primeiro filme teatral a ser filmado inteiramente digitalmente. Como Pitof era um artista de efeitos especiais, decidiu filma-lo dessa maneira, pois, a pós-produção necessitava uma carga massiva de manipulação digital. Considerando o orçamento do filme, tal estratégia funcionou com excelência. O filme possui 800 cenas modificadas digitalmente no decorrer de 8 meses, pelo custo de € 20 milhões. Posso destacar a atenção que foi dada no CGI da máscara do Alquimista, que foi sem dúvida inspirada na ideia do também francês Georges Franju em seu filme "The Eyes Without a Face". A protagonista desse célebre filme, Edith Scob, também usa uma máscara, e em Vidocq ela possui um irrisório, mas interessante papel. O filme como um todo, possui cores muito vívidas, favorecendo de tal forma, o vermelho, amarelo e verde (Opa! Alguém lembrou de Amélie?). Os cenários são uma mistura de realidade e truques digitais, geralmente eles parecem extremamente diferentes dos cenários hollywoodianos que estamos acostumados. Os efeitos especiais foram realizados pela equipe de Pascal Giroux ("The Messenger: The Story of Joan of Arc"). Um dos objetivos de Pascal foi fazer com que os CGIs ajudassem a contar a estória, e não que simplesmente se sobressaíssem esporadicamente não decorrer do filme. A França do século XIX, chega a nossos olhos de uma maneira que é ao mesmo tempo estranhamente surreal e bela.

A edição foi (Em partes...) uma das únicas críticas de Vidocq. Editado de maneira moderna, a cadência das cenas é extremamente rápida, com vários close-ups no rosto dos protagonistas. Muitos não gostaram desse estilo frenético de edição, pois, os cortes supostamente pareciam desnecessários (O que na minha opinião, não é o caso...), e as cenas se tornaram mais difíceis de serem assimiladas. Eu percebi que a edição enérgica fez com que as cenas transcorrecem mais facilmente entre o presente e o passado, uma vez que, o filme é contado com a ajuda de flashbacks, mantendo assim, um maior interesse dos espectadores. Vidocq foi comparado, por um crítico francês, ao filme Seven (Igualmente excepcional!). Espectadores que desfrutam muito da lógica talvez não se interessem por Vidocq. Quando eu relaciono a edição com os efeitos especiais e as escolhas das cores, fica claro, pelo menos para mim, que a intenção dos criadores foi fazer Vidocq assemelhar-se a um "quadro em movimento". Vidocq é uma nova aproximação ao lado visual da cinematografia, que, por infortúnio, atualmente não é usado com maior consistência.


Também desejo salientar a beleza dos cenários do filme, em especial o maravilhoso chão espirográfico presente em uma das cenas. As praças, campos abertos e palácios... Tudo é uma experiência visual arrebatadora!





Vidocq foi promovido como sendo um filme de terror, é possível que vocês o encontrem rotulado dessa maneira, contudo, ele é sem dúvida um thriller investigativo com elementos de fantasia (Tá... Um pouquinho de terror também!). No início dos anos 2000, a França começava a entrar nessa esfera de filmes: Terror com elementos de fantasia. Talvez o filme mais famoso dessa época seja "O Pacto dos Lobos".

Vidocq: É terror!  -  Nimier: Não é!
Vidocq: É terror!!!   -   Nimier: Não é!!!
Concluo, meus caros, recomendando veementemente Vidocq. Um marco no cinema de fantasia! Somente pela experiência visual já será recompensador. Obrigatório para os fãs de Depardieu.

"O objetivo não é a imortalidade, mas a perpetuação imortal da beleza! A Arte!" O Alquimista

NOTA: 8.5

Au revoir

Os 10 Melhores Filmes de Buster Keaton - "O Homem que Nunca Ri"




10. Luzes da Ribalta (1952)



Luzes da Ribalta, é, sem dúvida, o epítome das obras-primas. Foi escrito, dirigido e estrelado por Charlie Chaplin (Seu antepenúltimo filme), e retrata o fim da vida de um renomado (Mas esquecido) comediante: Calvero.

Buster Keaton, possui um ínfimo papel nesta obra (Como o parceiro de Calvero nas últimas cenas), contudo, ver os dois maiores astros do cinema mudo contracenando é algo simplesmente memorável. Por este fato e muitos outros Luzes da Ribalta, merecidamente fez jus em estar nesta lista.
            
A título de curiosidade, posso ressaltar que, Luzes da Ribalta foi a única vez que Charles Chaplin recebeu um Oscar competitivo, por sua vez, na categoria de Melhor Trilha Sonora.

9. The Saphead (1920)



The Saphead foi o primeiro filme de Keaton no papel principal, que por sua vez, só o  conseguiu por uma recomendação do eterno Douglas Fairbanks.

Não é um filme excepcional, carece pela cadência formulaica, mas ainda possui bons momentos. O brilho, como é de se esperar, fica todo por conta do aspirante à astro.
          
8.  Marinheiro por Descuido (1924)



Risadas garantidas do início ao fim do filme, "Marinheiro por Descuido" supera em muito as boçais comedias atuais.

Estória sadia casada com boas atuações, foi o quarto filme dirigido por Keaton que já havia demonstrado talento sobre os diretores fachada dos grandes estúdios.

7. O Cameraman (1928)



Estamos em 1928, na infeliz decadência comercial de nosso astro. Nova safra de atores, novas tendências e temas cinematográficos consubstanciados com o exórdio do cinema falado obscureceram as comédias de Keaton.
          
Nada obstante, percebam que escrevi decadência comercial... Os filmes de Keaton, até 1934, possuíam qualidade fabulosa (Julgando-se que eram praticamente levados no ombro de um único ser). O Cameraman é a prova disto.
           
Tal película é indubitavelmente o primeiro filme metalinguístico, mostrando mais uma vez o pioneirismo de Keaton no cinema.

6. Nossa Hospitalidade (1923)



Tal filme apresenta duas ou três cenas já imortais na história do cinema mudo. Humor em sua melhor forma.
            
Keaton nunca usou dublês em seus filmes. De família circense (Vaudeville), ele próprio fazia suas coreografias e stunts (Apesar da opinião contrária dos produtores). Neste filme (Dentre muitos machucados), podemos salientar o seu quase afogamento na cena da cachoeira. Incrivelmente, após os primeiros socorros, Keaton não estava satisfeito com o resultado final da tomada e refilmou a cena (Desta vez sem se afogar).

5. Vaqueiro Avacalhado (1925)



Com certeza, Keaton dá vida ao vaqueiro mais atrapalhado do Velho-Oeste, nesta produção dirigida por ele próprio.
           
No período consistido entre 1923 e 1927, Buster Keaton realizou as maiores pérolas da comédia do cinema mudo, rivalizando diretamente com Chaplin, apesar de não angariar a fama social deste último. Felizmente, o vaqueiro Friendless (Sem amigos, em inglês) viveu nessa época.

4. Sete Chances (1925)



O contador Jimmie Shannon (Buster Keaton) está a beira da falência e não sabe mais o que fazer para manter seu negócio. Miraculosamente um conhecido advogado informa-lhe que seu falecido avô lhe deixou 7 milhões de dólares de herança. Contudo, para herdar tal montante, Jimmie precisa estar casado até as 19:00 hs de seu 27º aniversário, que seria mais precisamente... HOJE!
          
Este filme já foi refeito algumas vezes, nenhum superando o original, seja no forma ou mérito. Sete Chances é um clássico em toda sua formosura. É impossível não arregalar os olhos na última cena.
              
Até hoje possui o recorde de maior número de noivas em um filme. (!!!)

3. Sherlock JR. (1924)



Uma lupa, 7 regras e Buster Keaton. O resultado? Um dos maiores filmes de comédia de todos os tempos. Eu consegui rir sem parar durante 50 minutos. E o filme tem 45 minutos. (!!!)

Conta com tomadas inovadoras para a época, estas, por sua vez, se não ficassem perfeitas na primeira tentativa, Keaton as deixava de lado e simplesmente tentava algo diferente. Como ele mesmo dizia: "Se a comédia não for espontânea e única, não é boa comédia". Sherlock Jr. transmite alegria em sua forma mais primordial, descompromissada e sincera. O maior detetive do mundo do cinema, Sherlock Junior, com certeza está carimbado no coração de todos os cinéfilos. 

2. Marinheiro de Encomenda (1928)



Steamboat Bill Jr, no original, foi o último grande filme de Keaton, que apesar de não ter sido creditado também o dirigiu.
   
Seja através de imagens ou até do filme em si, nós todos já conhecemos a famosa cena do ciclone. Ela está (Pelo menos em minha opinião) entre as 10 maiores cenas do cinema, seja pelas cômicas acrobacias de Keaton ou pela eternamente plagiada cena da casa caindo sobre ele.
           
Lembram do primeiro filme do Mickey Mouse, "O Vapor de Willie", também de 1928? Aquele com o barquinho a vapor (Steamboat)? Meus caros, Walt Disney se inspirou neste filme de Keaton para criar o primeiro filme do ratinho mais famoso da história!
              
Buster Keaton era um Mestre da comédia. Um mestre quase inigualável!
         
O filme possui comicidade... E muita. Mas, o esmero fica todo por conta das incríveis acrobacias (Dois ossos quebrados, aliás) de Keaton durante o ciclone. Nossos olhos sequer piscam!
            
Depois deste filme (Lembram da decadência? Estamos em 28), Keaton fechou seus estúdios e  firmou contrato com a MGM. Esta, por sua vez, não se adaptou ao escrupuloso perfeccionismo do astro, que cinco anos depois o fariam ser demitido. O alcoolismo consubstanciado com problemas financeiros, levaram um dos maiores astros do cinema ao esquecimento. Buster Keaton viveria apenas no coração de seus apreciadores...

1. A GENERAL (1926)




Eu creditei nota 10, até hoje, somente a cinco filmes... O General está entre eles.
            
A estória: Johnnie (B.K.) ama apenas duas coisas no mundo, sua namorada Annabella Lee e seu trem, "A General". Quando a Guerra Civil estadunidense começa, Johnnie é recusado no alistamento, pois, sua profissão como engenheiro locomotivo seria muito mais valiosa no decurso do conflito do que a de soldado. Annabella pensa que ele foi recusado por ser um covarde. Antes que ele consiga se explicar, "A General" é sequestrada por soldados da União com Annabella a bordo. Com isso, Johnnie precisa salvar ambos amores de sua vida.
         
Me pergunto, mesmo depois de ter assistido o filme quatro vezes, como determinadas cenas foram filmadas? Tudo é suntuoso, meus caros, tudo! A cena da ponte caindo, da batalha as margens do rio Mississipi, a perseguição de locomotivas... Não há uma cena sequer que seja passível de alheação. Risadas e tensão, esse é "A General". Assistam este filme, meus caros, valerá e muito a pena. 


Este foi meu tributo à Buster Keaton, homem este, que levou inspiração e alegria ao coração de muitos. "Rosto de Pedra", obrigado por ter existido.

O Salário do Medo (1953)


Olá, meus caros.

Na análise de hoje o esplêndido filme "O Salário do Medo", de Henri-Georges Clouzot. Obra-prima do cinema francês, é descrito como clássico do Cinema Mundial. Simplesmente inigualável em inúmeros critérios.

Tensão! Creio que esta seja a melhor palavra para caracterizar a grandiosidade desta obra. O roteiro, as atuações, o método de filmagem é além do inacreditável, tudo isso consubstanciado com o suspense irrefreável, tornam "O Salário do Medo" um filme ainda por ser superado.
               
Lembro de inteirar-me sobre tal película através de meu vizinho, um senhor extremamente afável. Ele disse-me: "Já que você gosta de filmes antigos, já deve ter assistido O Salário do Medo, certo?". Meio envergonhado por nunca sequer ter ouvido falar do filme em questão, respondi: "Não, coronel. Nunca assisti." Ele franziu o cenho, olhou-me nos olhos e retorquiu: "Então, meu caro, aconselho-lhe à assistir". Foi um dos melhores conselhos que havia recebido naquele ano.

Mas o que torna O Salário do Medo tão suntuoso?
    
A começar pela direção de Clouzot (Que consagrou-se na história do cinema com esse trabalho), o elenco, passando pelo período em que o filme é ambientado, até o roteiro e a maneira que ele foi explorado, são os fatores chave para o êxito desta produção.
               
O enredo é consideravelmente simples. Um dos poços de petróleo de uma empresa estadunidense (SOC),  localizado em um país não mencionado da América do Sul, sofre um acidente e acaba lamentavelmente sendo incendiado. A única maneira de parar o vazamento é com o uso de explosivos. Como se a situação já não estivesse custosa, o único explosivo disponível para esse desastre encontrava-se na sede da empresa, que por sua vez, distava 500 quilômetros do poço. O petardo em questão: Nitroglicerina. Dois caminhões, carregados com este infernal líquido, precisariam ir de uma cidade a outra para interromper o vazamento. Não obstante, a estrada que liga os dois pontos é mais danificada que a BR-235 em dia de chuva. Entenderam o porque da tensão?

    
          Lembra da Fonte dos Desejos? Atualmente ela é de Petróleo. 
Isso nos leva a segunda parte do enredo: Quem seriam os motoristas dos infames caminhões?

No país em que o filme é ambientado, em especial na cidade sede da empresa, existem dezenas de imigrantes que saíram de sua terra natal em busca de emprego. Eles podem ter encontrado tudo nessa aventura, menos algum ofício. Por não possuírem dinheiro para pagar as taxas da alfândega, e consequentemente voltarem para seu país de origem, a cidade tornou-se um reduto de desempregados. Nesse quadro, a empresa de petróleo oferece pagar todos os custos alfandegários para quatro voluntários. A missão deles... Você já pode imaginar.
                           
Vida chata, né?
Eis que surgem nossos quatro protagonistas!
     
O primeiro deles, o quase playboy da Córsega, Mario. Interpretado por Yves Montand, que na época ainda não era um ator tão renomado, Mario simplesmente não aguenta mais a vida enfadonha que leva, e deseja mais do que tudo sair do país. Tal papel foi merecidamente aclamado. Montand capta toda a angústia de sonhos não realizados e transforma em uma virtuosa atuação. A maneirismo de Mario é singular... Você se importa com o personagem na grande maioria das cenas, apesar de sua impertinente personalidade. No fundo, ele é apenas uma pessoa tentando sobreviver nas veredas da vida.
Yves Montand, interpreta Mario, o aspirante a bon-vivant. 
Charles Vanel da vida ao ex-criminoso Jo, o segundo de nossos "heróis". Apresentado inicialmente como uma pessoa versada e experiente, Jo deixa por transparecer, a partir da metade da trama, seu verdadeiro "eu". Uma pessoa que atribui a velhice, a culpa por sua covardia. Somente no fim do filme, Jo se redimi perante suas ações e realiza um ato de bravura (Pelo menos a visão dele próprio).

Jo, o Covarde Corajoso.
O alemão Peter van Eyck, representa Bimba, homem que retêm o infortúnio de ter tido os pais assassinados no regime nazista. Personagem bastante centrado, sangue-frio e persistente. Em muitos aspectos Bimba é o oposto de nosso próximo intérprete.
          
Por fim, temos Luigi (Folco Lulli), pessoalmente meu personagem favorito. Luigi é um pascácio sujeito, extremamente robusto e ao mesmo tempo de coração-mole. Por ter trabalhado desde sua infância como pedreiro, Luigi infelizmente descobre que está padecendo por inalação prolongada de pó de cimento. É, meus caros, os pulmões dele estão virando pedra. Literalmente! 
         
Os poucos momentos cômicos do filme ficam por conta de Luigi. De personalidade bastante espontânea, sua figura nos faz encontrar comprazimento nos momentos menos esperados.
          
Depois de muito meditar nos longínquos templos da península de Kola, creio ter descoberto o porque da escolha de colocar-se Bimba e Luigi no mesmo caminhão. Talvez  tenha sido uma homenagem aos patriarcas da contraposição de personalidades, "O Gordo e o Magro". Em algumas cenas conseguimos sentir um pouco do sentimento nostálgico que a lembrança de Laurel & Hardy nos trás. Imagino que os produtores nem pensaram nisso, contudo, tornou-se (Pelo menos em meu caso) uma coincidência digna de ser salientada.  




Estes são os 4 principais personagens da trama, porém, sinto-me imensuravelmente obrigado a comentar sobre Linda, interpretada por Vera Clouzot. Filha de um comerciante local, Linda possui um amor descomedido por Mario, que por sua vez, a trata de forma quase sadística. Religiosa e inocente, a beleza de Linda se destaca em todas as cenas em que aparece.
     
A caráter de curiosidade, posso ressaltar (Para aqueles que ainda não perceberam) que Vera Clouzot é a esposa de Henri-Georges Clouzot. Ela apareceu em apenas 3 filmes, todos dirigidos pelo esposo. Não obstante, meus caros, Vera Clouzot é brasileira! É isso mesmo! Ela nasceu no Rio de Janeiro e imigrou para França na sua adolescência. 

A bela Vera Clouzot interpreta Linda, o Amor negligenciado. 
Partirei agora, meus caros, para a análise das generalidades da produção.

A narrativa do filme inicia-se em uma cadência normal, nunca deixando de lado a excepcional direção de arte. Os personagens são apresentados e a trama toma corpo, para que, à partir da metade do filme, o suspense impere.
    
O Salário do Medo é um dos poucos filmes que me fizeram vilipendiar a respiração. Acreditem, meus queridos, respirar se torna secundária quando vê-se um caminhão carregado de nitroglicerina subindo um barranco prestes a desmoronar. 

                                            Você teria coragem?

A relação entre os personagens, em especial a rivalidade, é muito bem abordada. É nesse momento que indiscutivelmente sentimos que um bom roteiro consegue levar um filme costas (Não que esse seja o caso). Os diálogos são trabalhados de maneira ímpar, constituídos de todos os valores intrínsecos das relações humanas. Clouzot faz um frio retrato do ser humano quando exposto a situações extremas. Os personagens são cúmplices de sua própria degradação.  
   
Seguindo esse raciocínio, são nas partes finais do filme que fica mais evidente o porque dele ser considerado uma obra-prima (Muito semelhante com "O Tesouro de Sierra-Madre").
               
Dos demais elementos cinematográficos como, fotografia, edição, figurino e afins, não há muito o que ser discutido. Tudo molda-se perfeitamente ao filme. Os ângulos das tomadas foram muito bem lapidados por Clouzot, transmitindo vivacidade a todo momento. Na primeira metade do filme, as cenas são bem abertas, muitas vezes mostrando o horizonte. No decorrer do mesmo, os planos reduzem-se e diversas cenas são feitas apenas com o rosto do protagonista em quadro, deixando visível o sentimento de desespero que todos passavam.
      
A trilha sonora é ausente na maior parte do filme (Principalmente à partir da metade). Todavia, este é um recurso clássico de filmes de suspense, usado para aumentar a expectativa e a tensão das cenas. Não há muito o que ser comentado aqui.

                               A Bíblia dos protagonistas.
  Tanto Yves Montand como Charles Vanel contraíram conjuntivite depois dessa cena.  
O Salário do Medo é baseado na obra homônima de Georges Arnaud, escritor francês extraditado que presenciou a condição dos trabalhadores sem sindicato da América do Sul e Central. Uma das críticas do filme reside nas relações de imperialismo dos EUA sobre as outras nações americanas. A empresa de petróleo (Southern Oil Company - SOC) importa-se apenas com o lucro, retratando o homem simples como sendo mais barato que um barril de seu produto. No Tio Sam, o filme foi censurado com justificativas de antiamericanismo.



Por fim, desejo frisar algo que percebi em minha pesquisa para essa análise. O nome original do filme é "Le Salaire de la Peur", certo? Praticamente em todos os países em que foi lançado o título foi traduzido literalmente. The Wages of Fear, El Salario del Miedo. Até mesmo em russo: Плата за страх (Sendo cmpax, medo em russo). O motivo é bastante claro, ressaltar a palavra MEDO, sentimento este que todos os protagonistas sentiram, e quem sabe, até mesmo os espectadores. Fiquei surpreso pelo Brasil não ter traduzido o título para algo totalmente diferente do original como é de costume por aqui. Provavelmente este filme se chamaria: "As Fantásticas Aventuras dos Quatro Caminhoneiros na Terra de Guadalupe", mas tivemos sorte.

Concluo, meus caros, que O Salário do Medo realmente merece ser apreciado. Serão 150 minutos muito bem aproveitados. Para nossa geração, que está acostumada com incríveis efeitos especiais, O Salário do Medo pode parecer um filme ignóbil. Não é o caso. Precisamos nos colocar na época em que o filme foi realizado. Acreditem, a perspectiva da crítica transforma-se totalmente. 

Nota: 10

        Os verdadeiros heróis são aqueles que geralmente não lembramos os nomes.